segunda-feira, 27 de outubro de 2008
nete mo samete moshoonen manga yume mite bakka
jibun ga suki janai nonani ga hoshii ka
wakaranakutetada hoshigattenurui namida ga ho wo tsuteu
Mais ou menos, a tradução é uma repreensão a alguém que não sabe o que quer, que perdeu o rumo, que vive uma vida de sonhos. E ao escutar isto agora, lembro-me bem que a letra refletiva justamente o meu estado de espírito, o marasmo que insistia em continuar e maltratar uma consciência desfacelada pelas conseqüências dos atos de seu possuidor. Repreendi-me, pautado nas palavras de pessoas que por vezes dizem: "você não cresce" "olha, ele ainda lê histórias em quadrinhos, manga de adolescente" "veja como ele é exagerado nas ações, como ri alto, como fala alto, como faz piadas de criança, como se veste" "parece mesmo uma criança". Parei. E talvez a satisfação dos outros em me ver um pouco menos Israel desencadeou uma infelicidade ressentida. Mas a culpa disso é sempre minha, porque permiti essa interferência. Hoje sei que responsabilidade não tem nada a ver com isso... As pessoas tem um jeito peculiar que querer transformar, moldar, as outras naquilo que geralmente gostariam que elas fossem. Não há violência nessa tentativa. Há sutileza, pois o objeto a ser modificado nesses casos geralmente não é um estranho, mas o filho, o marido, a mulher, a amiga, enfim, um ente querido, estimado. Quem nunca escutou outra pessoa dizendo: "eu não gosto disso nele, mas aos poucos vou fazer com que pare com isso"? Egoísmo puro, mascarado num sentimento de afeição. Que haja a afeição em si, é outra história, e não digo que não haja. Só afirmo que essas colocações que praticamente impomos na forma de um sorrido ocultante para outros, se traduz na infeliz sensação de ver aquele outro como um diferente. E como isto nos incomoda! Como é difícil engolir garganta adentro o fato de que não há espelhos, não há réplicas nem sósias de nós mesmos. Mesmo quando vivemos numa sociedade repressora, cada um há que ser ao menos fisiologicamente diferente. Não há moldes idênticos. E há uma ironia neste fato, porque o anseio de liberdade, de diferenciação está arraigado em nossos corpos, queremos ser únicos. Mas ao mesmo tempo, queremos que os outros sejam como nós! Esta a ironia que se esconde, ou uma certa maldade, talvez. Pois o desejo maior é de ser como um vírus que injeta seu material genético no hospedeiro e o "contamina" com o seu ser. Este o desejo de todo ser humano: ser um, e desejar o um para os diferentes. Ser autêntico, e desejar a inautenticidade. Ser egoísta ao ponto de intencionar talhar a existência de outro que já está completamente modelada. Somos, neste caso, artistas, que tomam a obra pronta de outro autor para fazer dela outra completamente diferente. Como somos hipócritas, como negligenciamos a existência dos outros! E isto me deixa com o estômago ruim.
Não quero ser alguém além de mim mesmo. Isto só causa sofrimento. Mas quero me esforçar para não desejar o contrário para os outros. Isto não é uma declaração de alteridade, apenas um ponto de vista. Sofre-se por ser o que não se é. Por enquanto, vou ler meus mangás, assistir meus animes, gritar exageradamente quando der vontade, agir "como criança", quando tiver vontade. Se eu decidi não abandonar uma parte de minha infância ou adolescência, isto conta para mim, isto é importante. E não há nada que alguém possa fazer para mudar isto. Se quiserem um Israel diferente, procurem na lista telefônica. Não mudo mais. Não vale a pena se moldar para os outros, nem faz sentido. Seria para mim, falta de caráter fazer isso. E carência de não perder ninguém em minha vida. Mas meu orgulho me diz para não fazer isto. E depois de 2007, valorizo até demasiadamente o que ele me recomenda. Não acredito na hipótese social de que opostos se atraem. Apenas aqueles que possuem uma afinidade grande é que tem essa tendência. Deixemos esse enunciado apenas no campo das ciências naturais, por favor.
O comércio de idéias acabou, e não estou aberto a sugestões por enquanto. Vou jogar um pouco de videogame agora...
sábado, 18 de outubro de 2008
Nota sobre Descartes e a postagem anterior:
Pois bem, não digo que sei a resposta. Mas acho que no seu afã de divinizar a razão, o filósofo desconsiderou algo capital no seu argumento do Cogito. Ora, a conclusão a que Descartes chega, resume-se na fórmula bastante difundida do "cogito, ergo sun" ou "penso, logo existo". Para ele, o ser humano é uma substância pensante! Reduzindo todas as prováveis dúvidas acerca da existência do homem a uma certeza incontestável logicamente, esse francês pensou ter provadol o papel preponderante da razão na vida do homem. Ora, mas e a vida mesma? Onde ficou nesta maneira de pensar? Não importa, uma vez que encontrar a certeza capilar de sua filosofia já basta para saber quem é o homem. E é decorrente dessa certeza que todo o mundo moderno está construído para ele. Para mim, não há dúvidas de que Descartes se precipita em colocar a razão moderna no estandarte em que ele preparou para ela. Certo, ninguém pode me enganar que eu penso, nem mesmo um gênio malígno, porque o pensar já é prova cabal da existência humana. Ora, mas se for tão simples assim, então é como se a vida importasse menos do que a razão! Eu penso, mas para que eu pense, é preciso que eu viva! Esta é a grande angústia mal entendida no argumento de Descartes. Ele precisa salvaguardar a razão, para que a vida exista! Mas ele esquece que a vida existe mesmo antes da própria razão. De que vale essa parte da vida, se a vida em sua plenitude não tem importância? O que Descartes fez, foi atribuir um valor mais alto para uma parte da vida, ams esqueceu-se de que a vida mesma, em toda sua complexidade, está para além do entendimento da razão como ele desejava. Se penso, então isso é prova de que mesmo enganando-me a respeito das coisas, eu existo! Há uma razão que deve preceder a existência, pelo menos logicamente. Mas logicamente, se não houver o pré-requisito da vida, antes de qualquer razão que pense o mundo, não haveria a própria razão. Penso, logo existo... mas para que eu pense, é preciso estar vivo, seja num corpo, numa alma, ou em que receptáculo quizermos colocá-la. Mas é imprescindível que vivamos! Não há existência sem razão, mas também não há razão sem a vida. Se morrermos, ou se Deus desejar que nossa razão se deteriore, ainda sim seguiremos vivendo em uma existência irracional, mas que não deixa de ser tão verdadeira quanto a de qualquer homem cartesiano. Talvez Descartes tenha ficado constrangido de admitir essa supremacia da vida em seu argumento, como forma de não entrar num círculo vicioso. Se vivo, então estou apto a pensar, se penso, então existo, mas a existência é condição da própria existência da razão, ora, mas a existência já é o próprio viver, então, voltamos ao ponto de origem: a vida.
Como é difícil pensar numa solução para a angústia da filosofia cartesiana!
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Da Capo!!
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
Clarice Lispector
Acho que não há melhor maneira de começar este diário do que colocar uma frase que representa mais do que qualquer outra essa infindável estrutura chamada vida. Na verdade, há que se dizer que o viver, como ato inerente ao homem, pressuposto e anteposto a qualquer valor que este possa ter, implica bem mais do que o expressar-se de um ser, de uma coletividade, de inúmeras existências, da própria Existência. Pronto, já sei que vivemos então, e que o ato de viver é aquilo que está antes de qualquer suposição sobre o que é este ato. Vivemos antes de ter consciência de que vivemos, de que existimos. Mas a vida não se resume a apenas isto. Pelo menos não para os homens. Se conseguimos viver, isto também se deve ao fato de que somos seres significantes. Somos ativos em dar, emprestar, doar sentido às coisas e à propria vida. Não há vida humana, sem um sustentáculo axiológico. O ato de viver, portanto, traduz-se numa outra e gigantesca atividade: a de instaurar valores ao mundo inerente ao ser humano. Que se dê o nome que se queira a este ato - vontade de potência, instinto de sobrevivência, impluso de conservação - não importa. O que se tira dessa observação é que não há outra alternativa ao homem que não passe por este processo de lançar-se ao desconhecido de maneira temerária, colorindo o que antes, bem antes do preto e do branco, era um vazio, um nada de sentido. Quando nos rendemos ao ato de viver, também nos rendemos ao desejo de criar. Somos, pois, todos artistas, inventamos a todo o momento, o próprio momento da existência. Somos os seres que preenchem as lacunas deixadas pelo silêncio cósmico, que procuram eternamente e insaciavelmente dar um sentido, uma meta, um objetivo às suas vidas.
Que viver ultrapassa qualquer entendimento nosso, disso não há dúvidas... somos chamados a todo o momento a refazer o caminho que deságua nos sentidos da vida, porque continuamente nosso entendimento sobre o que é esse tal fenômeno denominado vida, transforma-se a todo instante. Por isso um entendimento da vida não é, em si, o entendimento da mesma. Devemos saber flutuar para além de qualquer estabilidade confortável que uma visão de mundo nos proporcione, porque acomodação gera pré-juízos (-conceitos), fadiga de uma vida estagnada, desespero de contradições que não se desfazem quando os valores são contrapostos com os valores de outras vidas, de outras formas de vida. E mesmo que houvesse algum consenso entre o que se entende por vida, ainda assim tal assentimento não significa mais do que morte. Quando se compreende que a vida é diferente dos sentidos que ela pode ter, dá-se um passo em direção a uma vida mais plena, que não só admite oposições, como além disso, entende que as oposições são nada mais do que pluralidades, que o próprio nome contradições, está imerso de sentidos sobre a vida. Há quem possa dizer: "mas admitir que a vida é pluralidade é admitir ademais que não há valores bons ou maus, valores melhores ou valores piores, hierarquia de valores. Então, se assim é, pra que gastar nosso tempo buscando valores que no fundo são relativos e servem menos do que aquilo que é insignificado?" Podemos responder, sem sombras de dúvidas, que a própria vida coloca essa tarefa para nós, a de criar os significados para ela. Mas o que quer a vida com isso? Bom "isto é uma outra história, e deverá ser contada em outra ocasião".
Antes que você comece a escrever...
Antes que você escreva qualquer coisa neste espaço, resolvi tomar a iniciativa de mandar-lhe um lembrete para que não se perca no que vem a ser a finalidade deste diário. Há muito eu deixei de atormentar-lhe com minhas idéias, sentimentos e perspectivas sobre a vida, sobre o que eu considerava que esta fosse. Para mim, diferente de você, esta está preenchida de uma finalidade que infelizmente não pode ser explicada racionalmente, pelo menos por enquanto. Isto explica porque eu carrego comigo este semblante sereno que há muito tempo você abandonou. A serenidade sempre foi uma das minhas mais belas qualidades, porque eu sempre soube o que eu era, e qual a minha missão nessa vida. Meu otimismo sempre foi meu alidado e nele encontrei possibilidade de viver uma infância feliz, e uma adolescência que perpassou os problemas existenciais sem muitos problemas. Contudo, tem algo que me incomoda muito, e hoje noto o quanto fui desleixado em não captar esta peculiaridade em mim: vivi sempre dentro de um invólucro, dentro de uma cápsula que me protegia da realidade externa. Nunca fui propenso a compartilhar com o mundo as dores que eu tinha, nem as alegrias. Por mais que vivesse num lugar rodeado de seres viventes, nunca me deixei transpassar a película que me separava dos demais moradores desse mundo. Enfim, eu sempre preferi o exílio a qualquer outra coisa que me fizesse sentir pertencente de uma coletividade. Sempre escolhi a solidão aos perigos que a abertura ao mundo carrega. Sempre desejei me afastar, não me ferir, não me deixar afetar pelas conseqüências de abraçar com toda a intensidade a experiência de me amalgamar no âmago dessa realidade. E isto porque o medo sempre foi meu companheiro. Medo de que o mundo pudesse me ferir, me magoar, me fazer triste. Por isso, carrego um coração ainda intacto das vivências que a vida proporciona a que tem a coragem de quebrar a distância entre o fundo de sua própria subjetividade e as subjetividades das outras pessoas.
Meu amigo, por favor, não repita o mesmo erro que eu! Disse-me que o objetivo desse diário é organizar, para você mesmo, as coisas importantes em sua vida. e diante do que me disseste, percebi a imprescindibilidade desse feito para mim e para você. Você só vai conseguir encontrar um significado para sua vida, no momento em que perceber que a vida é, para além, muito além, do que eu imaginava, mais do que simples reflexão interna, isolada das mazelas e dos prazeres proporcionados pela vida. Abrir-se para a vida é o primeiro passo que você tem que dar para encontrar o sentido de todo o que atualmente experimenta. Não ouse dividar disso, por favor!! É o que te peço de todo o coração. Quando vejo você, ainda sinto que tem muito de mim, que vive muito como eu vivi. E isto é uma coisa que tem que acabar. Por mais que sejamos parecidos, por mais que nossa origem seja a mesma, não podemos deixar que uma tal identificação seja completa. Seu caminho não está mais no mesmo que o meu, e isto é um fato! Olhe ao redor! Olhe para os livros que você possui em sua escrivaninha. Olhe para as coisas que você tem, para as pessoas que conheceu depois que nos separamos! Para as dores que experimentou, para as alegrias que você presenciou! Olhe para o que foi cultivado em seu coração!
Estou feliz que algo ainda esteja habitando seu coração, o desejo de seguir em frente, de continuar. Espero que minha serenidade esteja agora com você. Aquela serenidade que você bem conhece e que me fazia confiante quanto ao meu futuro. E você sabe quantos desejos eu tive... quantas coisas eu quis para mim mesmo. E sei que agora só você pode concretizá-los para mim.
De agora em diante, serei uma voz em sua mente, lhe advertindo quando perder o fim que está empenhado em atingir. Vou caminhar com você, paralelamente. Serei sua memória, suas advertências, e um pouco de adversário. Confrontarei-lhe quando achar necessário, darei-lhe forças quando observar que seu ânimo está por um fio de cessar. É para mim mais que um amigo, e você sabe disso. É além disso uma forma de eu me afirmar enquanto o que sou, enquanto o que fui. E afirmando-me posso dizer com certeza que não é em vão esse esforço que está fazendo para afirmar quem você é também. Eu lhe peço apenas mais uma coisa: não tenha vergonha de mim. Não esconda-me de ninguém, nem de você mesmo. Sabe que se fizer isso, estará negando a si próprio.
Boa sorte nessa empreitada, estarei com você sempre que precisar.
Atenciosamente, seu passado...


