sábado, 18 de outubro de 2008

Nota sobre Descartes e a postagem anterior:

A primeira vista, quando se lê as Meditações Metafísicas, de Descartes, o aluno do primeiro ano de qualquer curso de Filosofia sente-se envolvido no clima que o livro proporciona! "Que perfeição!" "Que argumento brilhante!" "Impossível refutar tal pensamento!"... A empolgação é tamanha, que qualquer um que mantêm contato pela primeira vez com a filosofia deste pensador moderno sente-se tentado a filosofar assim que as linhas avidamente percorridas pelos olhos sobre o texto do mesmo acabem. Há um expressar da vida aí que não pode ser negado. É como se o livro fosse uma fonte inesgotável da experiência do viver. Quem já leu As Paixões da Alma sabe bem como é sedutor o modus operandi de Descartes. É quase de se pensar que ele elevou a razão humana do mesmo modo como o jünger Werther sublimou sua amada, mais precisamente, O Amor, em suas cartas, a um patamar quase sobrehumano. Mas passada essa perplexidade toda, o máximo que fica desse amor à filosofia de Descartes é uma angústia por não saber responder corretamente à pergunta: "o que, nessa filosofia da agonia, não está direito?", "o que nossas lágrimas de regozijo deixaram passar ao embaçar nossa visão tão intensamente assim?" "o que está para além da razão cartesiana que nem mesmo Descartes soube dar resposta?".
Pois bem, não digo que sei a resposta. Mas acho que no seu afã de divinizar a razão, o filósofo desconsiderou algo capital no seu argumento do Cogito. Ora, a conclusão a que Descartes chega, resume-se na fórmula bastante difundida do "cogito, ergo sun" ou "penso, logo existo". Para ele, o ser humano é uma substância pensante! Reduzindo todas as prováveis dúvidas acerca da existência do homem a uma certeza incontestável logicamente, esse francês pensou ter provadol o papel preponderante da razão na vida do homem. Ora, mas e a vida mesma? Onde ficou nesta maneira de pensar? Não importa, uma vez que encontrar a certeza capilar de sua filosofia já basta para saber quem é o homem. E é decorrente dessa certeza que todo o mundo moderno está construído para ele. Para mim, não há dúvidas de que Descartes se precipita em colocar a razão moderna no estandarte em que ele preparou para ela. Certo, ninguém pode me enganar que eu penso, nem mesmo um gênio malígno, porque o pensar já é prova cabal da existência humana. Ora, mas se for tão simples assim, então é como se a vida importasse menos do que a razão! Eu penso, mas para que eu pense, é preciso que eu viva! Esta é a grande angústia mal entendida no argumento de Descartes. Ele precisa salvaguardar a razão, para que a vida exista! Mas ele esquece que a vida existe mesmo antes da própria razão. De que vale essa parte da vida, se a vida em sua plenitude não tem importância? O que Descartes fez, foi atribuir um valor mais alto para uma parte da vida, ams esqueceu-se de que a vida mesma, em toda sua complexidade, está para além do entendimento da razão como ele desejava. Se penso, então isso é prova de que mesmo enganando-me a respeito das coisas, eu existo! Há uma razão que deve preceder a existência, pelo menos logicamente. Mas logicamente, se não houver o pré-requisito da vida, antes de qualquer razão que pense o mundo, não haveria a própria razão. Penso, logo existo... mas para que eu pense, é preciso estar vivo, seja num corpo, numa alma, ou em que receptáculo quizermos colocá-la. Mas é imprescindível que vivamos! Não há existência sem razão, mas também não há razão sem a vida. Se morrermos, ou se Deus desejar que nossa razão se deteriore, ainda sim seguiremos vivendo em uma existência irracional, mas que não deixa de ser tão verdadeira quanto a de qualquer homem cartesiano. Talvez Descartes tenha ficado constrangido de admitir essa supremacia da vida em seu argumento, como forma de não entrar num círculo vicioso. Se vivo, então estou apto a pensar, se penso, então existo, mas a existência é condição da própria existência da razão, ora, mas a existência já é o próprio viver, então, voltamos ao ponto de origem: a vida.
Como é difícil pensar numa solução para a angústia da filosofia cartesiana!

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