quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Da Capo!!


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

Clarice Lispector


Acho que não há melhor maneira de começar este diário do que colocar uma frase que representa mais do que qualquer outra essa infindável estrutura chamada
vida. Na verdade, há que se dizer que o viver, como ato inerente ao homem, pressuposto e anteposto a qualquer valor que este possa ter, implica bem mais do que o expressar-se de um ser, de uma coletividade, de inúmeras existências, da própria Existência. Pronto, já sei que vivemos então, e que o ato de viver é aquilo que está antes de qualquer suposição sobre o que é este ato. Vivemos antes de ter consciência de que vivemos, de que existimos. Mas a vida não se resume a apenas isto. Pelo menos não para os homens. Se conseguimos viver, isto também se deve ao fato de que somos seres significantes. Somos ativos em dar, emprestar, doar sentido às coisas e à propria vida. Não há vida humana, sem um sustentáculo axiológico. O ato de viver, portanto, traduz-se numa outra e gigantesca atividade: a de instaurar valores ao mundo inerente ao ser humano. Que se dê o nome que se queira a este ato - vontade de potência, instinto de sobrevivência, impluso de conservação - não importa. O que se tira dessa observação é que não há outra alternativa ao homem que não passe por este processo de lançar-se ao desconhecido de maneira temerária, colorindo o que antes, bem antes do preto e do branco, era um vazio, um nada de sentido. Quando nos rendemos ao ato de viver, também nos rendemos ao desejo de criar. Somos, pois, todos artistas, inventamos a todo o momento, o próprio momento da existência. Somos os seres que preenchem as lacunas deixadas pelo silêncio cósmico, que procuram eternamente e insaciavelmente dar um sentido, uma meta, um objetivo às suas vidas.
Que viver ultrapassa qualquer entendimento nosso, disso não há dúvidas... somos chamados a todo o momento a refazer o caminho que deságua nos sentidos da vida, porque continuamente nosso entendimento sobre o que é esse tal fenômeno denominado vida, transforma-se a todo instante. Por isso um entendimento da vida não é, em si, o entendimento da mesma. Devemos saber flutuar para além de qualquer estabilidade confortável que uma visão de mundo nos proporcione, porque acomodação gera pré-juízos (-conceitos), fadiga de uma vida estagnada, desespero de contradições que não se desfazem quando os valores são contrapostos com os valores de outras vidas, de outras formas de vida. E mesmo que houvesse algum consenso entre o que se entende por vida, ainda assim tal assentimento não significa mais do que morte. Quando se compreende que a vida é diferente dos sentidos que ela pode ter, dá-se um passo em direção a uma vida mais plena, que não só admite oposições, como além disso, entende que as oposições são nada mais do que pluralidades, que o próprio nome contradições, está imerso de sentidos sobre a vida. Há quem possa dizer: "mas admitir que a vida é pluralidade é admitir ademais que não há valores bons ou maus, valores melhores ou valores piores, hierarquia de valores. Então, se assim é, pra que gastar nosso tempo buscando valores que no fundo são relativos e servem menos do que aquilo que é insignificado?" Podemos responder, sem sombras de dúvidas, que a própria vida coloca essa tarefa para nós, a de criar os significados para ela. Mas o que quer a vida com isso? Bom "isto é uma outra história, e deverá ser contada em outra ocasião".

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