quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Antes que você comece a escrever...

Meu prezado amigo Israel:
Antes que você escreva qualquer coisa neste espaço, resolvi tomar a iniciativa de mandar-lhe um lembrete para que não se perca no que vem a ser a finalidade deste diário. Há muito eu deixei de atormentar-lhe com minhas idéias, sentimentos e perspectivas sobre a vida, sobre o que eu considerava que esta fosse. Para mim, diferente de você, esta está preenchida de uma finalidade que infelizmente não pode ser explicada racionalmente, pelo menos por enquanto. Isto explica porque eu carrego comigo este semblante sereno que há muito tempo você abandonou. A serenidade sempre foi uma das minhas mais belas qualidades, porque eu sempre soube o que eu era, e qual a minha missão nessa vida. Meu otimismo sempre foi meu alidado e nele encontrei possibilidade de viver uma infância feliz, e uma adolescência que perpassou os problemas existenciais sem muitos problemas. Contudo, tem algo que me incomoda muito, e hoje noto o quanto fui desleixado em não captar esta peculiaridade em mim: vivi sempre dentro de um invólucro, dentro de uma cápsula que me protegia da realidade externa. Nunca fui propenso a compartilhar com o mundo as dores que eu tinha, nem as alegrias. Por mais que vivesse num lugar rodeado de seres viventes, nunca me deixei transpassar a película que me separava dos demais moradores desse mundo. Enfim, eu sempre preferi o exílio a qualquer outra coisa que me fizesse sentir pertencente de uma coletividade. Sempre escolhi a solidão aos perigos que a abertura ao mundo carrega. Sempre desejei me afastar, não me ferir, não me deixar afetar pelas conseqüências de abraçar com toda a intensidade a experiência de me amalgamar no âmago dessa realidade. E isto porque o medo sempre foi meu companheiro. Medo de que o mundo pudesse me ferir, me magoar, me fazer triste. Por isso, carrego um coração ainda intacto das vivências que a vida proporciona a que tem a coragem de quebrar a distância entre o fundo de sua própria subjetividade e as subjetividades das outras pessoas.
Meu amigo, por favor, não repita o mesmo erro que eu! Disse-me que o objetivo desse diário é organizar, para você mesmo, as coisas importantes em sua vida. e diante do que me disseste, percebi a imprescindibilidade desse feito para mim e para você. Você só vai conseguir encontrar um significado para sua vida, no momento em que perceber que a vida é, para além, muito além, do que eu imaginava, mais do que simples reflexão interna, isolada das mazelas e dos prazeres proporcionados pela vida. Abrir-se para a vida é o primeiro passo que você tem que dar para encontrar o sentido de todo o que atualmente experimenta. Não ouse dividar disso, por favor!! É o que te peço de todo o coração. Quando vejo você, ainda sinto que tem muito de mim, que vive muito como eu vivi. E isto é uma coisa que tem que acabar. Por mais que sejamos parecidos, por mais que nossa origem seja a mesma, não podemos deixar que uma tal identificação seja completa. Seu caminho não está mais no mesmo que o meu, e isto é um fato! Olhe ao redor! Olhe para os livros que você possui em sua escrivaninha. Olhe para as coisas que você tem, para as pessoas que conheceu depois que nos separamos! Para as dores que experimentou, para as alegrias que você presenciou! Olhe para o que foi cultivado em seu coração!
Estou feliz que algo ainda esteja habitando seu coração, o desejo de seguir em frente, de continuar. Espero que minha serenidade esteja agora com você. Aquela serenidade que você bem conhece e que me fazia confiante quanto ao meu futuro. E você sabe quantos desejos eu tive... quantas coisas eu quis para mim mesmo. E sei que agora só você pode concretizá-los para mim.
De agora em diante, serei uma voz em sua mente, lhe advertindo quando perder o fim que está empenhado em atingir. Vou caminhar com você, paralelamente. Serei sua memória, suas advertências, e um pouco de adversário. Confrontarei-lhe quando achar necessário, darei-lhe forças quando observar que seu ânimo está por um fio de cessar. É para mim mais que um amigo, e você sabe disso. É além disso uma forma de eu me afirmar enquanto o que sou, enquanto o que fui. E afirmando-me posso dizer com certeza que não é em vão esse esforço que está fazendo para afirmar quem você é também. Eu lhe peço apenas mais uma coisa: não tenha vergonha de mim. Não esconda-me de ninguém, nem de você mesmo. Sabe que se fizer isso, estará negando a si próprio.
Boa sorte nessa empreitada, estarei com você sempre que precisar.
Atenciosamente, seu passado...

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