sábado, 22 de novembro de 2008

Curta sobre a Solidão.

Hoje abri meu msn e deixei-o no "disponível", só para ver se alguém conversava comigo. Hoje entrei no Orkut com a esperança de ler algum recado novo. Entrei no meu e-mail para verificar se a caixa de mensagem acusava alguma mensagem....... Hoje fui a Rio Preto, sentei-me na praça e fiquei com inveja das pessoas que passavam ao meu lado conversando entre si, do casal de namorados que insistia em não parar de mostrar que naquele lugar não havia solidão....... Hoje senti falta de conversar com alguém......
As vezes, a solidão invade tão sorrateiramente, que não percebemos o seu efeito imediato: uma intensa vontade de sociabilizar-se com o mundo, de expressar-se, por para fora aquilo que há muito está enterrado no fundo do coração. Não é o medo da solidão que faz isso, é a solidão propriamente dita. Porque quando precisamos disso desesperadamente, é porque estamos sós. Não há como negar que somos todos diferentes, e existem tendências e tendências. Algumas pessoas são naturalmente mais sociáveis, outras nem tanto. Acho que me encaixo na segunda opção. Mas o que não se pode duvidar é do fato de que a solidão ataca a todos, sem exceção. Sentimo-nos sozinhos por inúmeras razões, e apenas o coração daquele que se sente assim é que pode responder efetivamente à questão de por que compartilhar da presença desse sentimento.
Será a solidão uma convenção social? Algo construído? Ou seria um sentimento inato do ser humano? Uma fatalidade da qual ninguém está livre? Seria porventura uma parcela do instinto de conservação? Acaso poderíamos dizer que ela é prejudicial, benéfica? Hoje não tenho as respostas para isso, apenas me sinto solitário nesta mesa, com a esperança de que ao menos uma alma ou outra irá correr os olhos apressadamente nessas linhas que aqui traço. Não consigo pensar em nada sobre a solidão, pois hoje sou objeto, não sujeito, sou passivo, sinto-a em mim, não tenho como abstraí-la de meu ser, ainda que quisesse, e eu nem sei se quero isso neste átimo de momento. Daqui há duas horas pode ser que eu queira expurgá-la de mim, mas agora, apenas tenho a sua companhia comigo, somente isso.
Chego a imaginar a linha que se faz entre duas margens "opostas", digamos assim: de um lado, a necessidade, ainda que mínima, de uma coexistência entre homens, de um impulso à sociabilização; por outro, o desejo do "quero ficar sozinho", do afastamento consentido. Vivemos assim, desejando ora uma coisa, ora outra. Umas pessoas, mais intensamente a primeira, outras, mais fortemente a segunda. Mas inevitavelmente oscilamos entre estas duas margens. Mas o sentimento de solidão não consentido, isto é outra história. Ele vem, não pelo desejo da reclusão. Mas misteriosamente por outro motivo. Eu digo misteriosamente, porque se dissesse psicologicamente, reduziria este post a uma mera psicologia barata, pois não tenho o conhecimento positivo para uma tal ciência. É este outro motivo que cria nosso temor, nosso medo pela solidão. "Não quero morrer só", "Queria tanto alguém para compartilhar meus sentimentos", "Tenho medo de viver sozinho a minha vida inteira", "Minha vida não vale nada, pois sou uma pessoa muito só", "Receio que um dia me deixes, e que eu fique sozinho"... e por aí vai. São tantas as ocasiões nas quais a solidão invade nossas vidas, que me questiono das possibilidades que ela oferece. Mas agora não quero pensar nessas coisas....
Engraçado, não estou mais me sentindo tão sozinho assim mais...........

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Acasos felizes.

Todas as despedidas de minha vida foram, necessariamente, banhadas com chuva. Estranho acaso, que ironicamente reflete no exterior o que interiormente sinto. Se de um lado o compasso calmo das gotas que caem na calçada são uma imagem das lágrimas que não derramo no momento, assim também o cinza que cobre o céu é o reflexo de minha prisão interna, de meu monastério, do enclaustro que cultivo a mim mesmo, da prisão que me agrilhoa a mercê de minha vontade, de meu afastamento temporário do mundo.
Assim aconteceu várias vezes. Condicionei-me tanto a isso, que quando surge um evento, já espero pelo outro. É quase uma relação de causa e efeito.
Talvez esta estranha coincidência não tenha valor algum para além da minha própria visão sobre ele. Mas, particularmente por isso, por ser tão pessoal, tenha um significado maior para mim.
Não sou de acreditar em destino. Mas os acasos estranhos que acontecem em nossas vidas geralmente dão um tom mais colorido a uma vida quase que sempre coberta pelo monocromatismo.
Viva os acasos felizes!

domingo, 16 de novembro de 2008

Escrevendo por escrever...

Sem referências muito diretas à minha vida... isto simplesmente.... vem à mente, e a ocasião de se materializar fica a cargo das minhas mãos.

Morte necessária à vida (parte 1)
É que os olhos cansam, toda vez que um horizonte é encoberto pela névoa.
É que as lágrimas secam, toda vez que não se vê mais razões para chorar.
É que as dores cessam, alegando não se identificarem mais com o que se sente - elas se transformam.
É que o tempo requisitado não se tem mais em mãos, e as areias do passado escorrem das mãos fatalmente, rumo a talvez um esquecimento.
É que o coração não bate mais na iminência da lembrança, porque sabe que afinal, tudo tornou-se apenas uma recordação, nada mais.

E assim, o canto áureo da felicidade vai ficando para trás, rouco, vazio, abafado, afônico...
Tudo porque não se teve a visão da fatalidade, tudo porque não se previu o ocaso. Mas antes era diferente, e o sentimento era de entrega.

Por isso os olhos fixados num horizonte ensolarado.
Por isso as lágrimas eram doces, porque representavam não uma despedida, mas as razões da permanência.
Por isso não havia dores, pois não havia identificação com o que isto representa de angustiante.
Por isso havia o tempo, a disposição de ser tudo o que fosse possível ser entre os dois. A ampulheta ainda não havia se quebrado.
Por isso o coração batia compassado, ao som que sempre ecoava do que para eles era importante, significativo. Por isso a recordação não era apenas recordação, mas necessidade de se afirmar o sentimento.

Agora carregam, cansados, a mácula da desconfiança. Carregam o fardo da distância que não se aproxima. Do amor matamorfoseado em lástima e ressentimento. Deixaram de viver suas vidas próprias, para morrer a vida um do outro...

Há de se desejar um antídoto para isto...

sábado, 15 de novembro de 2008



Pois bem. Começa hoje o encontro do G-20! Sim, mas o que eu tenho a ver com isso? Na verdade, não sou muito de me preocupar com o tema: política. Nem no plano prático, nem no plano teórico. Mas não posso me esquivar de algo interessante nesse encontro, que visa uma ampliação das perspectivas acerca dos rumos da economia mundial, sobretudo depois dessa crise que o mercado global vive.
Algum dia vocês, sentados em frente da televisão, ou de olho no computador, ou mesmo com os ouvidos ligados no rádio, ouviram falar de um encontro oficial de países com o objetivo de se discutir os valores vitais e necessários ao desenvolvimento humanista do mundo? Eu, pelo menos nunca! Talvez porque já esteja pré-estabelecidos nesses encontros a força que o paradigma atual tem em nossa civilização. "Econômico", é a palavra de ordem de todos esses encontros e preocupações. Na reunião do G-20 não será diferente. "Ó, Israel, vê bem o que fala, quem disse que é fácil organizar uma diferente estrututa pautada em algo que não seja o econômico hoje em dia?" - sim, podem me censurar por me utilizar tão vulgarmente o conceito de Econômico, nã ligo. E num certo sentido, sou "senso comum" demais sobre esta aspecto. Mas o ponto central a que me refiro aqui, é a falta de interesse em resolver questões, nesses encontros, que ultrapassem este âmbito tão delicado da vida humana. "Mas as outras esferas da vida dependem diretamente da esfera econômica, Israel". Não, não acredito nisso. Talvez como uma necessidade de nossa época, ou da estrutura da vida moderna, mas não, nunca necessariamente, univesalmente, aprioristicamente, esta esfera seria predominantemente responsável pelas outras. Nossa visão de primeiro degrau ofusca a reflexão e não nos permite avançarmos para o fim da escada, para um horizonte mais amplo de significações e de perspectivas. O que se mostra com o encontro do G-20 é a angústia de não se aceitar de uma vez por todas todas as faces da realidade que não podem viver diretamente ligadas à economia. "Pensamento infantil! Inocente, e equívoco da realidade!". Não questiono isso, questiono o fato de que, deixando de discutir problemas maiores, como a escandalosa contradição entre o que podemso fazer em prol da melhoria de vida das pessoas, e o que se faz efetivamente; ou mesmo a naturalidade com que hoje deixamos de nos identificar com o outro.
Enfim, há que se pensar num novo paradigma, disto não tenho dúvidas. "Você fala como um marxista vulgar! Quer uma revolução, então pegue uma foice no quintal de casa e vá à luta!" Uma revolução está fora de questão, e não me entendo como um especialista em política para pregar um mote marxista. Refiro-me muito mais à incapacidade que temos atualmente de deixarmos de pensar outras perspectivas para nossa vida, um alargamento do horizonte do sentido do que é a vida em sociedade, para além do aspecto econômico preponderante que encontramos hoje em dia e que, de uma certa forma, é responsável pela inanição das reflexões sobre isso tudo. A razão perde seu sentido ao se considerar autáquica, autônoma. Ao se estimar seu valor nesses termos, os homens a colocam a serviço das mais variadas finalidades. Há que se reorganizar esta visão, não relativizar tanto o emprego da razão, apenas dilatá-lo. Utilizá-lo para objetivos mais nobres, menos vulgares, menos econômicos...
Viva o G-20! E sua hipócrita tarefa de fazer do mundo um lugar mais tranqüilo! Perde-se o significado da vida, nesses encontros e associações...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Meu caro Israel

Meu caro Israel:
  • Se tiver de ir, vá. Mas não faça ninguém ficar esperando a sua volta.
  • Se tiver de voltar, diga que volta, e faça o favor de sempre cumprir com esta afirmação.
  • Se tiver de dizer, diga. Mas lembre-se de sempre se dirigir de forma franca e sincera, mas também de forma cordial, com respeito.
  • Não tenha medo de ser você mesmo, ou de que seja necessário mudar para evitar-se sofrimento. O contrário é preferido. Não há afeição pelo que não se gosta e as pessoas sempre estão procurando por aquilo que as identificam com os outros, e não o contrário. Portanto, ser outro que não você é, no mínimo, procurar pessoas que você não se identifica.

Fora isso, há outras recomendações que gostaria de fazer a você, mas que nesta postagem não tem sentido de se fazer.

Sei que ainda guardas um rascunho datado de 24 de Abril de 2006, lembra-se? Nele, você projetou algumas coisas que infelizmente não conseguiu atingir. Lembre-se de quais são. Algumas ainda têm sua razão de existir, outras nem tanto. E outras você já sabe que já atingiu. Bom para você. Mas procure ser cauteloso: você certamente não é mais aquele Israel de dois anos e meio atrás. Muitas coisas que decidiu para si não se cumprirão, porque não foram projetadas para você, mas para um passado seu. Não sei ainda o que desse passado você guarda, mas acredito que não seja muito. Olhando para você, sinto uma angústia (ia dizer tristeza, mas não é isso o que sinto realmente) por saber que ainda buscas algo que não sei se vai encontrar. Sua procura, contudo, foi há algum tempo interrompida. Ainda não posso dizer-te se concordo com ela ou não. Nem digo para continuá-la ou quem sabe abandoná-la. Para mim, esta busca era necessária, ela ainda é para você? Para mim, esta procura condizia com o que eu imaginava das coisas, do mundo. Ainda concordas comigo sobre estes pontos? Você parou de refletir sobre eles, e só há pouco voltou sua atenção novamente a isto. Sinto que não estejas perdido. E na verdade, talvez esta angustia que sinto refere-se muito mais a mim do que a você mesmo. E eu sei disso! Contudo, ainda quero saber se estas coisas ainda fazem parte de ti, se ainda são importantes para você. Talvez isto seja medo de que algum dia desvincule-se totalmente de mim, e tenho medo disso. Mas não leve este meu temor em consideração. Afinal, você não é mais o que eu sou, ou fui. Procure atentar para o que vem de agora em diante. Acredito que devas ter cautela com isto.

No mais, aguardo uma visita tua, mesmo que seja por intermédio da lembrança.

Atenciosamente, seu passado.

Por que o Pânico na Tv faz tanto sucesso?

Acho que preferia ter começado este post de outra forma: como conseguimos rir do que se passa nesse programa? Claro, que me utilizo aqui de um programa específico para querer falar de algo de abrangência geral. Pensemos um instante: quais as principais atrações em programas como este? Sempre são as pessoas. Sejam elas famosas, ou ordinárias, não importa. A idéia parece ser a de ridicularizar ao máximo o outro. Portanto, o outro é sempre o alvo de nossos risos, de nossas gagalhadas. Ao assistir um programa como esse, nos esquecemos por um instante de que o "outro" é, na verdade, apenas mais uma face do "eu" que se encontra por trás da televisão. Ao rirmos do outro, deixamos de rir de nós mesmos, mesmo que neste ponto haja esta contradição dos "contrários" que se assemelham. O riso, que provém das atitudes de humilhação, de violência, de degradação da pessoa-alvo, é o álibi que temos para tentarmos acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. O riso é o álibi do sadismo que se oculta nele. Não escutamos nossos próprios pensamentos enquanto as gargalhadas que se originam de nossas gargantas nos ensurdecem toda vez que um mendigo é alvejado, um bêbado é esculachado, uma celebridade é questionada de sua capacidade artística. Tudo é muito festivo! Tudo é muito convidativo! Tudo, é muito mendaz...
Atrevi-me a ver um vídeo que um site colocou no ar do referido programa. É aquele famigerado quadro em que um ator travestido de Amy Winehouse sai violentamente abordando os transeuntes e os estabelecimentos que se encontram em seu caminho e depredando e atacando aquilo que ele vê pela frente. E o que aconteceu? Subitamente uma risada saiu de mim, justo no momento em que um vendedor de algodões doces é atingido no peito por um chute da suposta "Amy"! Sim, não há como negar que a cena não tenha saído engraçada: a preparação para ela por parte da produção, minha disposição em aceitar isto como engraçado, o esquecimento do que de oculto há por trás de um ato como este, tudo isso é a encarnação de um distanciamento do "eu" com o "outro". Tudo isto é a falta de relação que hoje as pessoas acumulam em suas vidas. Relação no sentido de identificação com o outro. Identificação que não quer dizer submissão ou mesmo alienação (esqueçam o sentido marxista desta palavra, por favor!!!). Ao rir daquela cena, senti-me ultrajado, por me vender tão facilmente a algo que no fundo quer o que afirmei acima: a distância entre mim e as pessoas. Há uma borda que separa o meu eu dos eus de outras pessoas, isto não se pode negar. Mas esta borda torna-se uma muralha pela cegueira que uma cacovisão como aquela impõe aos nossos olhos e consequentemente aos nossos pensamentos. Antes de pensar no dia duro daquele vendedor de algodão doce, eu me permiti pensar no que aquilo que acontecia com ele tinha de hilário. Foi minha negação pela alteridade que fez isto, minha falta de identificação com o próprio vendedor. Para mim, e para as milhares de pessoas que assistiram e que ainda vão assistir ao vídeo, o que vai ficar é a engraçada cena de um homem caindo violentamente no chão - e o triste é saber que aqui, "engraçado" e "violento" não são antônimos!!! - mas para ele, fica a dor de ver seu trabalho atrapalhado por uma falta de identificação. Certamente, para aquele homem, o dia não será mais o mesmo. A humilhação que fez milhares de pessoas rirem é a mesma que fará o dia daquele vendedor um inferno. Mas não queremos saber disso. Queremos rir, nos divertir com essas pegadinhas preconceituosas que insistem em fazer sucesso em qualquer emissora de televisão. Queremos mais humilhação, porque isto significa mais risadas, e mais risadas significa mais álibis a favor de nossa conduta cega e inadvertida. Já afirmei, a risada é um álibi, neste caso. Por isso, todas as vezes que a cena acaba, mudamos de canal ou desligamos a televisão e vamos jantar sem preocupações... afinal, é apenas uma brincadeira... esquecemos, contudo de nos perguntarmos o quanto isso custa nas relações que temos com as outras pessoas, o quanto isso reflete em nosso esquecimento pelos homens, pelo que neles é mais necessário e imprescindível: sua dignidade, seu respeito, seu orgulho. Ao rirmos de tudo isso, rimos de nós mesmos, de nossa patética e doentia situação, que ainda encobre nossa consciência para algo que no fundo é primordial: o abandono de nosso "eu" como verdade, e a adoção de um "eu" mais maleável, mais sisudo, menos ignorantes nas questões do "fora", daquilo que está além da borda do eu.
Nosso riso esconde nossa violência incontida, nossa vontade de pôr para fora nossas frustrações em forma de protesto. Este riso esconde o primordial impulso de negação do estabelecido, que fica adormecido em forma de ressentimento. Este riso é, na verdade, ressentimento! Curvar-se a ele, é curvar-se às questões que realmente valem a pena de se preocupar como, por exemplo, como direcionar esta vontade de contestação para algo que valha a pena, e não para uma risada aparentemente inocente, que carrega tanta mágoa e ressentimento de nós mesmos...