segunda-feira, 24 de maio de 2010

INSTAURATIO MAGNA

Algumas palavras ficam cravadas. Não há como separá-las de sua carne. Às vezes você se arrepende por tê-las dito, as vezes se orgulha do brilho que elas têm.
Eu sempre acreditei que tudo na vida é eterno. Eterno porque tudo tem uma história, mesmo que não escrita, nem mesmo oral. Mas uma história de existência, de geração e de corrupção, um "alfa", um "miu" e um "ômega". Por mais breve que algo seja, sem sentido, sem função, sem motivo de existência... ao menos um dia existiu, e sua história segue como um eco pelos cantos do universo.
Não sei bem porque penso assim, talvez porque me conforta, para quando eu me for e meus restos há muito se dissiparem na terra. Porque não acredito em nada metafísico. Acho que por isso sou amargo. Mas não acreditaria apenas para ser feliz. Somente se a razão e a sensibilidade me alertarem para essa possibilidade.
Mas eu falava das palavras, daquelas que de tão intensas, têm sua existência fundida com a nossa. Palavras ditas num momento de tristeza, num juramento de amor, numa hora de ódio e fúria. Palavras de esperança, de conforto, de amaldiçoamento, de perdão, de aconselhamento. Não importa. Nossa vida, nesses últimos milênios, não pode ser desvincilhada dessa coisa chamada linguagem. Somos tão propensos a ela ultimamente. sofremos com ela. É um fardo, na verdade. Com ela fazemos promessas que não cumprimos, cuspimos na cara dos outros, sem o escarro verdadeiro. Torturamos almas mais dolorosamente do que qualquer instrumento torturaria um corpo.
Eu sofro com as palavras, porque minha relação com elas é trágica. Nunca soube tratá-las devidamente. Sempre as usei a meu favor, de modo deliberado, muitas vezes sem convicção. Usei-as como quimeras, como antídoto para momentos de desespero. E depois as abandonei. E mesmo aquela nas quais acredito de verdade, minha atitude diante delas é de fuga, medo.
Estive voltando ao meu passado, ao menos nas palavras que ele me envia as vezes e pensei: de que vale a linguagem, se ela não passa disso para mim? Seria melhor que ficasse calado então. Mas e nossa "natureza" socializante? E nossa propensão ao outro? A amizade, o amor? Como ficam se eu realmente me vejo como um eremita? A verdade é que sinto tanta falta disso, e por tanto tempo. Mas uma barreira insiste em se fazer materializada entre mim e o mundo. E com isso, minha vontade é paralisada. Perco os sentidos, perco a força, quero o abismo. Caminho para ele. As vezes eu pulo, outras tenho medo e me afasto. Seja como for, o abismo me consome, a escuridão é total lá dentro, assim como a solidão. As coisas me abandonam, eu as abandono também. Mas as palavras ficam. As promessas, as frases de alegria, a cacofonia do choro.
Não posso amaldiçoar as palavras em minha vida. Elas são tudo o que ainda me ligam a este mundo. São tudo pelo qual ainda tenho coragem de arriscar minha vida. Mas as palavras foram ditas para mim, para outros. Isto me faz de certa forma conectado. As palavras são vetoriais, indicam alguém, alguma coisa. Que posso eu fazer se elas são assim? E se elas não me abandonam, oh dádiva maldita de viver sobre duas patas, as coisas do mundo também não. Mas por quê? Por que tem que ser assim? Mesmo quando estou em queda livre, com a cabeça inclinada para o impacto, elas insistem em me salvar? Pegar em minha mão e me puxar do abismo? Por que as palavras são tão maldosas a ponto de interferir em minha decisão de desistir? De terminar a caminhada antes do fim? Sinceramente eu não sei. Mas elas voltam para mim, sempre voltaram. Elas me avisam das coisas que me são caras, importantes. Elas me fazem ver as perspectivas que eu deletei de minha mente. Elas me levam até meus valores perdidos, esquecidos em algum canto de minha memória catatônica. Eu queria que elas me trouxessem minha vontade novamente. Minha vontade de ser algo além dessa carcaça. Há muito não sei o que é isso.
Nas palavras, a minha salvação.

Um comentário:

Lilith disse...

Vc tem muito além de carcaça, meu querido...
Sei que descobrirá sozinho, mas saiba que tem gente que te acha capaz de muito, vc vai longe, garoto...
Te amo do fundo do meu coração...
Bjos,
P. A.