Sabe aquela sensação de que o dia é tão ordinário, tão ordinário, que de simplório, ele fica iluminado, especial? Pois é. Hoje parece um dia desses! Caminhando pelo centro de Araraquara, entre tantas pessoas que passavam ao meu lado, quase não resisti à tentação de fazer o mesmo que acontece no clipe do The Verve, daquela música Bittersweet Symphony. Era um dia cinzento, quase chuvoso, que insistia em sobreviver ao marasmo que foi essa sexta feira. Feitas as obrigações, pude andar com mais calma, e observar a estrutura da 9 de Julho, que é uma das ruas principais que deságuam na parte comercial do centro da cidade. Mais uma vez, nada de especial, tudo comumente comum!!
Pessoas trabalhando, andando distraídas na rua, entregando folhetos de igreja, vendendo frutas, tristes, encolerizadas, felizes, umas quase oferecendo um tímido: "boa tarde, tudo bem com você?", outras bufando um: "sai da minha frente, senão...". E eu com a dita música na cabeça, querendo protelar a volta para casa, querendo um pouco mais absorver na minha essência o significado desse dia comum que tanto meu fazia bem! Claro, muitas coisas interiores e exteriores contribuem para a minha visão tão colorida de um dia tão cinzento. Mas a mágica desse dia ainda não descobri! Não pude entender como algo tão corriqueiro se torna objeto de apreciação por parte de alguém. Que se danem todas as complicadas fórmulas da auto-ajuda! Não há como medir a felicidade ou a tristeza de alguém, nem uma metodologia científica que direcione os sentimentos das pessoas! Talvez se as pessoas olhassem com mais interesse o ordinário, seriam mais felizes... mas isso é apenas uma cogitação, e não uma prescrição. Vale pra mim, talvez não valha para mais ninguém! E me interiorizando, sinto que isso acaba sendo um imperativo na minha vida, não há como eu sair dessa imposição de mergulhar no ordinário. Para mim, é nele que estão todas as coisas que valem a pena serem vividas, é nele que está tudo o que há de ser especial na minha vida. Por isso não busco complicações, apesar de ser uma pessoa meio complicada as vezes... ^^ ... Mas Bittersweet Symphony continuava a ecoar pela minha cabeça, já se passavam das seis e meia, era hora de ir. E no ônibus de volta fiquei a pensar na garota que lia um gibi da Mônica sentada na área de alimentação do Extra que observara há pouco. Ela faltava sair pulando de contentamento com sua leitura, e apesar de tudo, o mundo à sua volta parecia não existir. Mergulhara no míster de ler tão profundamente que mal importava a ela o meu olhar indiscreto de observador. E eu quase ri com ela, não fosse a curiosidade que me força a olhar em todas as direções, para todas as feições e comportamentos. Se há alguma coisa que sou bom, e que minha criação cristã não me impede de ter orgulho, é de ser um bom observador! Claro que na maioria das vezes, guardo minhas observações comigo mesmo, converso apenas com meu interior quanto a elas. Talvez por um pudor que me é próprio, não sei bem. Naquela hora, no Extra, eu perdi a noção do termo "complicações". O fato é que fiquei pensando no devir, mais precisamente em como nos tornamos rabugentos no decorrer dos tempos, e perdemos a inocência da infância. Tratado besta este, de dizer da importância da inocência das crianças, coisa que já foi escrita por milhares de pessoas, com milhares de propósitos diferentes. Só queria deixar como adendo o que me ocorreu naquela hora: a expressão da menina, lendo seu gibi, num lugar público, era de total liberdade! Liberdade que a menina tinha de realizar o seu ser do modo como ela efetivamente queria! E não como a "postura adequada" dita para cada ocasião! E não apenas isso: percebia a cada página que ela acabava, que os homens têm o péssimo hábito de julgar os outros por aquilo que deixam de lado enquanto crescem, por aquilo que perdem enquanto "amadurecem". É como se houvesse uma necessidade de negar o que se foi, para afirmar o que se é. É como se uma onda de ceticismo fosse tomando conta de cada ser, quase um ressentimento, nascido das decepções que acumulamos em torno de nós. Mas o que deveria deixarnos mais esperançosos, deixa-nos mais desanimados. E a culpa cai muitas vezes na inocência com que vemos o mundo quando somos mais jovens, e que não tem uma relação necessária com esse fato. Certa vez, numa cidade um pouco distante desta aqui, visitei uma pessoa. Um dia fomos ao supermercado comprar algumas coisas que ela precisava na casa dela. Lembro-me bem de termos comprado um iogurte cada um pois estávamos com fome. Ao deixarmos o supermercado, sentamos no meio fio, e ali mesmo matamos nossa fome. O ato em si não quer dizer muita coisa. Mas a simplicidade do ato, foi o que contou para mim, e o que me marca até hoje na memória. Acho que foi uma das coisas mais simples que fiz, que tiveram significados extremos para mim. A cena de nós dois sentados no passeio, enquanto carros cruzavam a rua, e pessoas circulavam atrás de nós não me sai da cabeça, e talvez seja importante para mim que não saia mesmo. Foi um dia comum, que se tornou especial. Sentados ali, viramos cúmplices um do outro, por este gesto singelo de pararmos nossas rotinas para aproveitarmos aquele momento. Parecíamos duas crianças brincando com seus brinquedos novos sem dar importância para o mundo. E gostaria que a vida das pessoas fosse feita mais desses momentos, como daquele dia, como hoje...
Mas The Verve persiste... sentado aqui, agora, ouço a música repetidamente... e penso na metáfora que o clipe pode ter para mim, no tocante à vida: no clipe, o vocalista anda por uma rua e, a despeito das pessoas que vêm ao seu encontro, ele caminha sempre olhando pra frente, trombando com quem esteja no seu caminho. Acho interessante o clipe, porque ele me remete diretamente aquela metáfoa que falei: particularmente, acredito que deva ser assim o modo mais adequado de se enfrentar os problemas que a vida nos coloca. Caminhando sempre em frente, sem medo de esbarrar nos obstáculos que vemos pela frente, enfrentando-os de cara, e sem medo. E sempre com uma canção nos lábios, pois a vida deve ser sublime, mesmo que seja dura a nossa existência. Nosso destino é uma fatalidade, seja ele qual for. Cabe a nós, decidirmos como queremos enfrentá-lo. Prefiro viver como uma criança, sem medo dos erros que possa cometer, do que como um adulto cético que perdeu a vontade de experimentar a vida... não sei quanto as outras pessoas...



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