Acho que preferia ter começado este post de outra forma: como conseguimos rir do que se passa nesse programa? Claro, que me utilizo aqui de um programa específico para querer falar de algo de abrangência geral. Pensemos um instante: quais as principais atrações em programas como este? Sempre são as pessoas. Sejam elas famosas, ou ordinárias, não importa. A idéia parece ser a de ridicularizar ao máximo o outro. Portanto, o outro é sempre o alvo de nossos risos, de nossas gagalhadas. Ao assistir um programa como esse, nos esquecemos por um instante de que o "outro" é, na verdade, apenas mais uma face do "eu" que se encontra por trás da televisão. Ao rirmos do outro, deixamos de rir de nós mesmos, mesmo que neste ponto haja esta contradição dos "contrários" que se assemelham. O riso, que provém das atitudes de humilhação, de violência, de degradação da pessoa-alvo, é o álibi que temos para tentarmos acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. O riso é o álibi do sadismo que se oculta nele. Não escutamos nossos próprios pensamentos enquanto as gargalhadas que se originam de nossas gargantas nos ensurdecem toda vez que um mendigo é alvejado, um bêbado é esculachado, uma celebridade é questionada de sua capacidade artística. Tudo é muito festivo! Tudo é muito convidativo! Tudo, é muito mendaz...
Atrevi-me a ver um vídeo que um site colocou no ar do referido programa. É aquele famigerado quadro em que um ator travestido de Amy Winehouse sai violentamente abordando os transeuntes e os estabelecimentos que se encontram em seu caminho e depredando e atacando aquilo que ele vê pela frente. E o que aconteceu? Subitamente uma risada saiu de mim, justo no momento em que um vendedor de algodões doces é atingido no peito por um chute da suposta "Amy"! Sim, não há como negar que a cena não tenha saído engraçada: a preparação para ela por parte da produção, minha disposição em aceitar isto como engraçado, o esquecimento do que de oculto há por trás de um ato como este, tudo isso é a encarnação de um distanciamento do "eu" com o "outro". Tudo isto é a falta de relação que hoje as pessoas acumulam em suas vidas. Relação no sentido de identificação com o outro. Identificação que não quer dizer submissão ou mesmo alienação (esqueçam o sentido marxista desta palavra, por favor!!!). Ao rir daquela cena, senti-me ultrajado, por me vender tão facilmente a algo que no fundo quer o que afirmei acima: a distância entre mim e as pessoas. Há uma borda que separa o meu eu dos eus de outras pessoas, isto não se pode negar. Mas esta borda torna-se uma muralha pela cegueira que uma cacovisão como aquela impõe aos nossos olhos e consequentemente aos nossos pensamentos. Antes de pensar no dia duro daquele vendedor de algodão doce, eu me permiti pensar no que aquilo que acontecia com ele tinha de hilário. Foi minha negação pela alteridade que fez isto, minha falta de identificação com o próprio vendedor. Para mim, e para as milhares de pessoas que assistiram e que ainda vão assistir ao vídeo, o que vai ficar é a engraçada cena de um homem caindo violentamente no chão - e o triste é saber que aqui, "engraçado" e "violento" não são antônimos!!! - mas para ele, fica a dor de ver seu trabalho atrapalhado por uma falta de identificação. Certamente, para aquele homem, o dia não será mais o mesmo. A humilhação que fez milhares de pessoas rirem é a mesma que fará o dia daquele vendedor um inferno. Mas não queremos saber disso. Queremos rir, nos divertir com essas pegadinhas preconceituosas que insistem em fazer sucesso em qualquer emissora de televisão. Queremos mais humilhação, porque isto significa mais risadas, e mais risadas significa mais álibis a favor de nossa conduta cega e inadvertida. Já afirmei, a risada é um álibi, neste caso. Por isso, todas as vezes que a cena acaba, mudamos de canal ou desligamos a televisão e vamos jantar sem preocupações... afinal, é apenas uma brincadeira... esquecemos, contudo de nos perguntarmos o quanto isso custa nas relações que temos com as outras pessoas, o quanto isso reflete em nosso esquecimento pelos homens, pelo que neles é mais necessário e imprescindível: sua dignidade, seu respeito, seu orgulho. Ao rirmos de tudo isso, rimos de nós mesmos, de nossa patética e doentia situação, que ainda encobre nossa consciência para algo que no fundo é primordial: o abandono de nosso "eu" como verdade, e a adoção de um "eu" mais maleável, mais sisudo, menos ignorantes nas questões do "fora", daquilo que está além da borda do eu.
Nosso riso esconde nossa violência incontida, nossa vontade de pôr para fora nossas frustrações em forma de protesto. Este riso esconde o primordial impulso de negação do estabelecido, que fica adormecido em forma de ressentimento. Este riso é, na verdade, ressentimento! Curvar-se a ele, é curvar-se às questões que realmente valem a pena de se preocupar como, por exemplo, como direcionar esta vontade de contestação para algo que valha a pena, e não para uma risada aparentemente inocente, que carrega tanta mágoa e ressentimento de nós mesmos...



Um comentário:
eles fazem sucesso pq eles são legal
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